De um sonho distante a uma realidade presente

Prestes a se formar em Direito, Maria Elisiaria Borges ainda não se imagina sendo chamada de doutora. Em breve, a estudante de 42 anos concretizará um sonho que, somente depois de muita batalha, fará dela “um exemplo para meus filhos”, como costuma dizer.

Aos 35 anos, Maria Borges teve o maior baque da sua vida com a inesperada, e até hoje muito sentida, morte do marido, vítima de um AVC (Acidente Vascular Cerebral), que a fez com que perdesse o rumo. Com três filhos, entre quatro e 16 anos, e trabalhando como diarista, viu que os ganhos não eram suficientes para seu lar.

Sem escolaridade, precisou começar do zero. Matriculou-se em uma escola pública e iniciou os estudos na educação básica. Depois de concluída esta etapa, só faltava começar o seu maior sonho: o ensino superior. “Estava decidida a fazer faculdade. Foi quando vi o anúncio para o Vestibular Social da Drummond. Fiz a prova numa quinta-feira e, no sábado, a matrícula. Sou muito grata à Drummond por tudo o que ela tem me proporcionado”, comenta.

E de pensar que os estudos foram iniciados pelo medo de perder seus filhos para o crime organizado. Moradora de uma comunidade carente, em São Matheus, na zona leste da cidade de São Paulo, após a morte do marido, Maria só pensava em como conseguiria dar conta das obrigações do lar e manter seus filhos no melhor caminho. “Eu não tinha estudos, então como poderia cobrar que meus filhos estudassem? Precisava ser um exemplo a eles”, relembra.

E quem diria que seria justamente na escola, num mundo onde o respeito deve imperar que Maria sofreria outras mazelas da vida, neste caso, o preconceito. Já prestes a finalizar o ensino médio, comentou com os colegas de sala que iria iniciar o curso de Direito. “Muitos falaram que eu não conseguiria, não teria condições de seguir na área. Naquele dia, cheguei em casa, chorei, chorei tudo o que podia. Aquilo me doeu só que ao mesmo tempo me deu ainda mais vontade de seguir na busca pelo meu sonho”.

E, por coincidências da vida, foi naquele mesmo dia que Maria saiu em busca do jornal MetrôNews, distribuído gratuitamente nas estações de metrô, em busca de anúncios de cursos de ensino superior. “Fiquei três dias sem achar nenhum jornalzinho”, lembra. “Mas, quando encontrei um, já no lixo, peguei e vi o anúncio da Drummond. Foi ali que comecei a concretizar meu sonho”, diz sob lágrimas que escorrem em seu rosto diante das memórias que percorrem suas lembranças.

Não foi fácil, Maria teve que se desdobrar para dar conta da família, da casa, dos estudos, das incertezas e do medo. “Hoje, posso olhar para meus filhos e dizer que sou um exemplo para eles. Isso é a minha maior alegria”, pontua.

 

Ainda hoje, Maria usa sua aliança de casamento no anelar esquerdo. Soldada junto à do ex-marido, afirma: “Só vou tirar para dar lugar ao anel do Direito”.